Destaque Internacional - Informes de Conjuntura - Ano IX - n 209 - São José da Costa Rica - 05 de outubro de 2006 - Responsável Javier González

Eleições brasileiras: declínio do magnetismo lulista?

Poucos dias antes do primeiro turno presidencial, uma inédita investida política e judicial de uma candidata comunista-abortista do Rio de Janeiro, aliada de Lula, impactou profundamente a opinião pública desse país

1. No Brasil, o presidente e candidato à reeleição, Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), obteve 48,61% dos votos válidos, contra 41,64% do segundo colocado, o centrista Geraldo Alckmin. Apesar disso, o clima psicológico no partido governante é de insipidez e até desânimo, porque se pretendia uma vitória com mais de 50% dos votos válidos já no primeiro turno.

Os seguidores de Lula parecem perceber que o balão publicitário que sustentava até há poucos dias o presidente Lula e que o mantinha incólume, acima de todo tipo de denúncias de corrupção de altas figuras de seu governo e de seu partido, começou finalmente a perder altura.

A julgar pela maioria dos analistas políticos brasileiros, o furo decisivo para começar a desinflar o balão publicitário lulista foi o último escândalo protagonizado por figuras próximas ao presidente, que tentaram comprar, por uma soma milionária, um dossiê que supostamente incriminaria o candidato presidencial oposicionista.

2. Não obstante, um segundo conjunto de fatos, ocorridos no Rio de Janeiro, menos comentado pelos analistas, pode haver tido um peso mais decisivo ainda para sacudir as consciências, quase se diria anestesiadas, de vastos setores do eleitorado, e abrir-lhes os olhos para a verdadeira face do lulismo.

Em meados de setembro, a Frente Carioca pela Vida, uma ONG integrada por jovens universitários, difundiu na cidade do Rio de Janeiro e em outras cidades desse importante Estado um folheto mostrando que a candidata ao senado Jandira Feghali, do Partido Comunista do Brasil, integrante da coalizão que apoia Lula, era a ponta de lança de planos governamentais para a total liberalização do aborto no Brasil. Os advogados da candidata, que até esse momento era a favorita nas pesquisas com uma ampla margem, apresentaram perante a Justiça Eleitoral do Rio um pedido de busca e apreensão de tais folhetos nas dependências do Arcebispo e na residência do Cardeal do Rio.

Um juiz acatou o pedido e produziu-se assim o fato inédito no Brasil de uma invasão de domicílio de tão altas dependências eclesiásticas. Mais ainda. O mesmo juiz mandou notificar o Cardeal do Rio e seus sacerdotes para que permanecessem em silêncio durante seus sermões, impedindo-os de se manifestarem sobre o tema do aborto. Uma instância judicial superior anulou posteriormente este segundo ditame do referido juiz, de amordaçar os católicos, porém o dano já era irreversível. Esse conjunto inédito de acontecimentos teve um impacto enorme na cidade e no estado do Rio de Janeiro, em todo o Brasil e inclusive no exterior, ante a sanha manifestada contra a Igreja e os católicos pela candidata comunista-abortista, aliada do presidente Lula, com o aval, mesmo que tenha sido passageiro, da Justiça eleitoral.

3. Em 1 de outubro, o dia das eleições, a candidata comunista a senadora foi derrotada estrepitosamente nas urnas. E é legítimo presumir que, em nível nacional, os fatos protagonizados pela referida candidata tenham influído para que ao candidato presidencial, Sr. Lula da Silva, lhe faltasse 1,5% de votos necessários para sua reeleição já no primeiro turno.

A invasão das dependências da Arquidiocese do Rio foi talvez o único episódio com conotações ao mesmo tempo políticas, morais e religiosas de todo o período pré-eleitoral, que demonstrou ter uma considerável capacidade de detonação nas consciências.

4. É possível que outros temas, até o momento silenciados, também possuam análoga capacidade detonadora. Chama a atenção que o lulismo tenha tentado tapear qualquer tema polêmico durante a campanha, e comenta-se que emissários presidenciais teriam solicitado ao presidente Chávez, da Venezuela, que não manifestasse publicamente seu apoio a Lula, tal como o fez com os candidatos presidenciais de esquerda do Peru e do México, ambos derrotados eleitoralmente em boa medida por causa desse apoio.

5. Não se sabe o que poderá ocorrer nas três semanas que separam o Brasil do segundo turno presidencial, marcado para 29 de outubro próximo. O concreto é que existem sinais auspiciosos de que pode ter começado o debilitamento e declínio do magnetismo lulista - não falta quem fale de feitiço psicológico - que tem mantido paralisados amplos setores do público brasileiro.

Tradução: Graça Salgueiro